A Filha do Capitão – Um fidalgo durante convulsões sociais

No século XVIII, a Rússia de Catarina II foi importunada por uma rebelião. Entre os anos de 1773 e 1775, o cossaco Pugatchev liderou a principal revolta campesina que a tzarina Catarina presenciou. Naquele momento da história russa, havia um recrudescimento da servidão e um empobrecimento da maioria do povo. Esse é o plano de fundo de A Filha do Capitão de Alexander Púchkin.
Narrada em primeira pessoa, a história gira em torno do fidalgo Piotr Andréitch Grinóv e conta a sua ida ao exército, além do combate contra Pugatchev. Entre esses eventos, ele se apaixona por Maria Ivánovna, filha do capitão da fortaleza em que foi servir.
Como um bom fidalgo, Piotr não enxerga as reinvindicações populares e, de certa maneira, até as diminui, como no capítulo 6 em que ele afirma que a fala de Pugatchev “fora escrita em termos grosseiros mas enérgicos, e devia ter tido um efeito perigoso entre gente simples”. Nesse mesmo capítulo, o narrador também avisa que “as melhores e mais sólidas transformações são as que nascem com o aperfeiçoamento da evolução dos costumes sem qualquer convulsão violenta”.
Apesar dessas informações, Piotr aponta para atos justos que Pugatchev teve e o personagem da ficção chega a ficar triste com a morte do personagem histórico. É paradoxal o fato de um fidalgo lutar contra uma revolta popular e ao mesmo tempo, mostrar o lado humano do líder dessa comoção. Essa deve ter sido a maneira que o autor encontrou para fazer críticas ao governo e escapar da censura. Pensando nessa situação, é explicável o narrador afirmar, no capítulo 10, que está relatando uma crônica familiar e não algo do domínio da história – apesar de livro ter uma forte carga histórica.
Outro fato que chama atenção no livro são as epígrafes que marcam cada começo de capítulo. Todas elas têm um caráter profético e dão dicas sobre os episódios que se desenrolarão naquela parte. Outra característica é que parte das epígrafes é de provérbios e cantigas russas e a outra parte é de escritores contemporâneos à época, dessa forma o novo e velho se misturam.
Ainda falando sobre a estrutura dos capítulos, esses são formatados à maneira dos folhetins, ou seja, acabam sempre durante um clímax. Tal atributo fica muito evidente no final do capítulo 10 em que o narrador anuncia ter tido uma ideia, mas “o leitor só irá conhecê-la no capítulo seguinte, como dizem os romancistas dos bons velhos tempos”.
Falando de forma resumida, em A filha do capitão, Púchkin, com sua forma fantástica de contar, mais do que apresentar uma historieta de amor, brinda o leitor com uma narrativa sobre um acontecimento extremamente simbólico para a Rússia e, futuramente, para a União Soviética.

A filha do Capitão/Dama de espadas
PUSHKIN, Alexander

Martin Claret
162 páginas
R$: 19,90

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