Viagens na Minha Terra – Estilística e conjuntura social

Um livro clássico e conhecido dos vestibulandos é o Viagens na Minha Terra. Escrito pelo português Almeida Garrett, essa obra traz as impressões da viagem ao vale de Santarém do narrador que conta a historieta de Carlos, Frei Dinis e Joaninha. Mas isso qualquer Wikipédia pode dizer.

Um lado mais interessante da obra Viagens na Minha Terra é que ela é  classificada como pertencente ao movimento Romântico, no entanto as marcas estilísticas do livro vão muito além das que o Romantismo propõe. Contudo, conforme o pensamento de Teófilo Braga de que o Romantismo só foi possível pelas mudanças políticas portuguesas, podemos concluir que o novo estilo proposto por Garret, em muito tem a ver com a conjuntura social da época.

Conforme um prefácio (presente na edição da Livraria Sá da Costa) elaborado pelo professor José Pereira Tavares, o livro de Garret é multifacetado. Nas “Viagens” se encontram traços de realismo; subjetivismo; ironia e humorismo; crítica política e social; divagações sobre Arte; História; lenda, – tudo isso ao lado de um romance romanesco […].

O primeiro ponto a ser levantado sobre a obra é a preocupação com a genialidade. A burguesia e a estética Romântica prezam pela originalidade e Garret – dentro desse contexto – não foge disso. Logo no começo do segundo capítulo ele trata de esclarecer tal aspecto ao leitor.

Estas minhas interessantes viagens hão-de ser uma obra-prima, erudita, brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do século.

De fato, a obra mistura diversos estilos, o que confere um caráter original ao livro. No entanto apesar de se propor a ser criativo e novo, o eu-lírico, assim como os classistas, explana sua erudição. Recuperando a tradição clássica, o narrador se refere à sua criação como “um mito, uma palavra grega” e também faz referencia à obra Dom Quixote de La Mancha de Miguel de Cervantes.

[…] simbolizar-se pelo famoso mito do cavaleiro da mancha, D. Quixote; — o materialista, que, sem fazer caso nem cabedal dessas teorias, em que não crê, e cujas impossíveis aplicações declara todas utopias, pode bem representar-se pela rotunda e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança.

A menção a Dom Quixote não é a troco de nada. A obra de Cervantes é do tipo romance de cavalaria, gênero da Idade Média. Outra referência literária que remonta à Idade Média acontece no capítulo 6 quando o eu-lírico disserta sobre a obra de Dante Alighieri, A Divina Comédia. No mesmo capítulo também se fala sobre os Lusíadas, de Camões. O narrador se diz um admirador do escritor, contudo afirma que só no Romantismo que Camões poderia misturar símbolos católicos com pagãos.

Apesar de Viagens na Minha Terra fugir do tema Romântico da Idade Média, há alusões da época no livro. O foco histórico do livro está na história de Portugal, principalmente nos anos de conflito entre liberais e absolutistas.

Por exemplo, no primeiro capítulo 8, há uma referência à ultima batalha dos liberais e absolutistas.

[…] – “Foi aqui!… aqui é que foi, não há dúvida.”

— Foi aqui o quê?

— A última revista do imperador.

— A última revista! Como assim a última revista! Quando? Pois?…

[…] O certo é que ali com efeito passara o imperador D. Pedro a sua última revista ao exército liberal. Foi depois da batalha de Almoster, uma das mais lidadas e das mais ensangüentadas daquela triste guerra.

 Outro exemplo de marca é na própria história narrada pelo eu-lírico. O capítulo 19 narra uma das batalhas entre a tropa de D. Pedro e de D. Miguel, além disso, os personagens Carlos e Frei Dinis representam respectivamente a força liberal que se alastrava pelo país e o setor conservador de Portugal.

Sobre esse último, o narrador dedica uma atenção especial no capítulo 13. Nesse capítulo, o eu-lírico admite não gostar de frades, mas afirma que eles fazem falta.

Frades… Frades… Eu não gosto e frades. Como nós os vimos ainda os deste século, como nós os entendemos hoje, não gosto deles, não os quero para nada, moral e socialmente falando.

No ponto de vista artístico porém o frade faz muita falta.

O narrador também chega a contrapor os frades com os barrões – barão capitalista do Constitucionalismo foi a figura que “substituiu” os frades depois da Revolução – estabelecendo uma contraponto entre os dias anteriores e os atuais a narração. E o capítulo 28 dedica especial atenção à história da igreja de Santa Maria. Enfim, as referências históricas são muitas e o livro é impregnado de uma consciência da sociedade.

Viagens na Minha Terra
GARRET, Almeida

L&pm Pocket
299 páginas
R$ 16,06

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s