Almas Mortas – A caricatura de uma sociedade universal

Oficialmente o Realismo na literatura se iniciou com Madame Bovary (1857), do francês Gustave Flaubert, no entanto Almas Mortas (1842), de Nikolai Gógol, já antecipa esse movimento.
O enredo do livro gira em torno do herói – que na verdade é um anti-herói – Pável Ivánovitch Tchitchikov, um funcionário público que tenta enriquecer. Dentro disso, temos como pano de fundo a Rússia ainda feudal do século XIX em que a importância de um proprietário é medida pelo número de almas que ele possui, ou seja, de quantos servos ele é dono.
O livro começa em plena ação, com Tchitchikov chegando a uma cidade. A partir disso, a história segue linearmente e deixa o recurso do flash back para o final. O herói da narrativa nos é apresentado exteriormente por meio de descrições físicas, da ideia que os outros fazem dele e – depois de algum tempo – com o acesso a alguns dos pensamentos do personagem, apesar de que, normalmente, o foco narrativo está muito mais em suas ações e em seus diálogos. Esse tratamento se opõe aos demais personagens que são tipos bastante caricatos e que o narrador não se priva de fazer juízo de valores diretos, como é o caso da pequena proprietária Nastácia Petrovna Korobotchka – uma matrona que, apesar de acumular pequenas riquezas, está sempre a reclamar – e Nozdriov – um homem que permanece na adolescência, gosta de jogos, de se vangloriar de suas poses e que é um mentiroso e trapaceiro nato. Em suma, “um tipo que todo mundo conhece” –, para citar apenas dois exemplos.
Voltando ao enredo, Tchitchikov chega à cidade e logo trava relações como todos. Descrito como um tipo médio – nem alto, nem baixo; nem velho, nem jovem; não fala alto, mas também não fala baixo; etc. –, o protagonista passa a visitar proprietários da região para comprar camponeses já mortos, em outras palavras, almas mortas.
Acontece que na Rússia do século XIX, os senhores tinham de pagar impostos pelos camponeses de que eram donos. Esse pagamento era estipulado com base em um censo que era realizado de tempos em tempos. O problema é que durante o intervalo de um levantamento para outro, servos morriam e os proprietários tinham de continuar a pagar taxas por essas almas mortas. O que Tchitchikov faz ao longo do livro – e sem que o motivo seja dado de princípio – é comprar esses camponeses mortos que ainda estão burocraticamente vivos. Depois, isso se revela uma forma ilícita de enriquecer.
Ao longo da história, o narrador não se priva de dialogar com o leitor, fazer comentários, estabelecer reflexões – alguns aparentemente desconexos da história, mas só aparentemente – e de dar dicas do que ainda irá acontecer. Aos finais dos capítulos, o recurso do clímax costuma ser empregado.
Assim como os livros do Eça de Queiros, as descrições são detalhistas – principalmente em relação às comidas –, os parágrafos são longos e os capítulos são extensos. Comparando com as obras de Machado de Assis, a ironia também é muito presente. Porém, no caso de Gógol, essa figura de linguagem tem um caráter bem cômico – mesmo para os dias atuais de uma sociedade não russa. Em resumo: O estilo narrativo é ótimo e a história flui tranquilamente.
Apesar de o autor negar e se declarar monarquista, a partir da obra pode-se desprender uma clara crítica social aos tipos aristocráticos russos – que também são universais, no final das contas –, a um sistema econômico falho e atrasado, a uma burocracia burra e à corrupção pública.
Por fim, ainda cabe uma reflexão quanto ao nome da obra. Será que – antecipando Os Miseráveis de Victor Hugo – o título não é ambíguo? Será que almas mortas são apenas os camponeses falecidos ou será que também o são as pessoas corruptas e sem profundidade?

Almas Mortas
GÓGOL, Nikolai

Abril Cultural
432 páginas
esgotado

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